Maravilhas da roça
Publicado em Claudia Cozinha – Julho de 2005

Nada como uma expedição gastronômica para descobrir aquilo que a gente não esta procurando.
Certa vez fui chamado por uma extinta revista de gastronomia para uma investigação na cozinha do interior paulista na região de Ribeirão Preto. Tudo parecia bastante óbvio, partindo do magnífico chope do Pingüim - onde não achei o famoso chopeduto que diziam, ligava a fábrica de cerveja às suas chopeiras. As novidades, também, não passavam do esperado. Lá haviam inaugurado um centro gastronômico nos moldes destes que conhecemos nos Shopping Centers, mas só que fora do Shopping.
Naquela época um médico tinha voltado de uma longa temporada nos Estados Unidos onde se apaixonou pela gastronomia. Este médico abriu um pequeno restaurante com base francesa, em sua casa, onde servia um cardápio que mudava diariamente em função da disponibilidade de produtos no mercado, coisa que Claude Troisgros já vinha fazendo no seu restaurante, “Roanne”, em São Paulo.
Havia, também, um usineiro abnegado que criava camarões gigantes da Malásia que, dizia, poderiam alcançar até 500 gramas em 4 anos. A grande surpresa surgiu quando pegamos (eu e a repórter) um táxi com o objetivo de conhecer os restaurantes de São José do Rio Preto. Já no caminho, o simpático taxista nos sugeriu uma paradinha na chácara de sua tia, que fazia uns “doces maravilhosos” nas proximidades do nosso destino. Já que estávamos adiantados, não custava fazer este favor ao nosso motorista.
O lugar, Engenheiro Schmidt, fica a poucos quilômetros do centro de São José do Rio Preto. Lá chegando deparamos com uma lojinha muito simples cheia de doces embalados em saco plástico. Tinha cara de pretexto para visitar a tia.
Feitas as apresentações fomos passear pelo pomar de 2 alqueires de dona Noêmia,a tia.Que surpresa! Ela cultiva tudo,de laranja da terra até tamarindo, passando por goiaba, marmelo e batata roxa. Ela só faz doces com os produtos de seu pomar.
Dona Noêmia tem uma pequena fábrica artesanal.Os tachos de cobre são imensos, a colher parece um verdadeiro remo e o fogão era uma grande fornalha alimentada por muita lenha.O calor lá era intenso. O processo é o mesmo de qualquer casa no interior, só que de maior tamanho. O incrível é que o sabor não diferia do doce da roça feito no fogão de lenha.
Fui até a cozinha para acompanhar o final da entrevista que estava sendo feita lá. Afinal, ainda tínhamos 2 almoços pela frente. Foi aí que percebi como a coisa funcionava. Toda a família morava e trabalhava ali. A cozinha era bem movimentada, pois servia de passagem entre a sala onde eram embalados os produtos e uma grande mesa onde estes eram arrumados e organizados para a entrega.
Neste trança-trança da cozinha reparei que as pessoas da família passavam carregando pacotes na ida e na volta abriam o forno e regavam um assado com o molho que ficava na trempe do fogão.O cheiro foi se tornando irresistível. A entrevista não terminava e a turma continuava regando o assado. Justo quando chegou a nossa hora de ir embora saiu do forno o cheiroso pernil. Aí aconteceu o que eu mais esperava: o convite.Apesar do adiantado da hora não houve quem nos demovesse a recusar um pernil como aquele.Que assado incrível! Desmanchava na boca.
O molho devia ter qualquer coisa mágica. Hoje quando se fala em São José do Rio Preto, só lembro daquele pernil.
Depois disso os nossos dois almoços na cidade pareceram tão sem importância que nem me lembro dos restaurantes.