Perto do meu estúdio na região central de São Paulo, surgiram nos últimos anos duas avícolas. Fui dar uma olhada e deparei com pequenas lojas azulejadas imersas naquele cheiro característico de ração.
São dois tipos de frango: o branco e o vermelho, que dizem ser mais saboroso. O pessoal do bairro compra os bichos, pede para abatê-los e depená-los para em seguida prepará-los nas suas casas, especialmente nos finais de semana. Poucos levam o sangue para o molho pardo. Só quando é para assuntos de religião levam o frango vivo.
No bairro de Moema, onde morávamos, então um lugar meio afastado e esquecido, minha mãe costumava nos mandar à Granja Santa Rita, ao lado da linha do bonde para buscar frango abatido na hora. Adorávamos observar a matança. Chato era dia de frango à cabidela (molho pardo), pois tínhamos que trazer o sangue dentro de um vidro e não dava para ir de bicicleta porque quebrar o vidro era castigo na certa.
Na feira do bairro, que ainda resiste no mesmo lugar, era comum ver frangos e galinhas vivas sendo vendidas. O feirante amarrava as aves pelos pés ao carrinho das freguesas. Os animais iam se debatendo pelo caminho, já prevendo que seu destino final seria a panela.
A época mais esperada por toda molecada da rua era o Natal. Meu pai trabalhava junto a prefeituras do interior e no final do ano começavam a chegar os presentes: doces, frutas, leitõezinhos, cabritos e perus, todos vivos, dentro de engradados. Teve uma vez que veio até uma paca!
O quintal de casa ficava parecendo um sítio. Minha mãe detestava, já que os animais comiam suas plantas e estragavam o gramado. Em compensação, adubavam o jardim que crescia que era uma beleza no verão. Todos os bichos eram muitos bem tratados e alimentados. Levávamos os cabritos para passear pela rua, tal qual os vizinhos faziam com os seus cachorros. Devia parecer muito estranho para alguém que passava ocasionalmente pelo bairro.
A matança dos porcos e cabritos ficava por conta do “seu” Eliziário, marido da Antônia, nossa faxineira. Era uma gritaria, tanto das crianças como dos animais. Minha irmã chorava com pena dos cabritos com os quais ela tinha passeado pelas calçadas do bairro e já tinham até nome. Os meninos corriam excitados por todo canto do quintal. Era uma sangueira danada que depois tínhamos que limpar com a mangueira.
Mais perto do Natal chegava a vez dos perus. Zéfinha, a nossa empregada pernambucana cuidava deste assunto. Ela dava pinga para as aves. Dizia que amacia a carne.
O fato é que depois de alguns minutos eles já estavam cambaleantes pelo quintal. Agora era moleza agarrá-los, já que antes quando arriscávamos tal feito eles fugiam ou tentavam nos bicar.
Aí começava a parte de ferver água para depenar os danados. Se a gente bobeasse, como era hábito, queimava as mãos.
A função de preparar a iguaria natalina tomava quase 2 dias. Fazer a marinada, preparar a farofa e levar para a padaria do ‘seu” Alberto para assar. Ele reclamava sempre. Mas, como tinha que atender a freguesia, não havia outra forma, senão assar a ave no seu imenso forno.
O mais curioso era que a Zéfinha nunca experimentou o peru, já que como crente (como evangélico era chamado, na época) não podia beber e dizia que como o Peru tinha tomado pinga ela não poderia comer a iguaria, pois era pecado.