Le CACHACIER, S’IL VOUS PLAÎT
Publicado em Claudia Cozinha – Janeiro de 2006

Hoje tudo mundo quer beber cachaça, desde o operário da construção civil até o bacana que vai ao bar da moda no seu carro de luxo. O curioso é que, ao contrário do operário, o rico não sabe o que esta bebendo, só o que está pagando, as vezes a preços absurdos.
Há poucos anos atrás, fui com um tio, recém chegado do Ceará, a um restaurante italiano com algum renome. Depois dos rapapés iniciais o maitre nos ofereceu as bebidas e aperitivos da casa. Quando meu tio pediu uma Velho Barreiro só faltou o homem nos dizer que aquele era um restaurante de classe, não o bar da esquina. Ali só havia “bebida boa” como grappa, cognac, uísque e até pastis (pinga de francês). Não nos restou outra opção senão tomar cerveja com parmigiano reggiano.
Recentemente voltei a este mesmo restaurante e consegui contar onze marcas da tal bebida de pobre expostas em lugar nobre do seu requintado bar. Nesta ocasião, o tal maitre me ofereceu todo orgulhoso a sua carta de cachaças. Todas “artesanais”, ou seja, coisa da roça mesmo.
Para se ter noção de como a cachaça anda disseminada é só lembrar do depoimento de um economista a uma das várias CPIs do nosso congresso nacional. O homem declarou: “eu havia começado a beber à tarde aquela cachacinha, minha capacidade de discernimento estava comprometida. Não me recordo se fiz a declaração”. É a marvada no congresso!
Os preços da pinga foram para a lua. Para comprar uma garrafa feita no Rio de Janeiro com 12 anos de envelhecimento é preciso desembolsar três vezes o valor de um litro de uísque escocês, é claro, com o mesmo tempo em tonéis de carvalho. Será que é a valorização do nosso produto? Pode ser, mas neste caso, vem impresso em dourado na garrafa o termo “Brazilian Rum”.
No imaginário de todo cliente de bar refinado que escolhe uma marca de cachaça nas extensas cartas, muitas vezes com mais de 100 rótulos, está aquela fazenda bucólica com vacas, galinhas, porcos e um pequeno alambique atrás da casa. A realidade não está muito distante disso. Só que tudo é um pouco mais esculhambado do que a turma imagina.
Todo mundo tem uma cachaça de 12 anos esquecida em algum lugar de sua fazenda. Invariavelmente é um lote esquecido pelo pai ou pelo avô e só descoberto recentemente. Os galpões das velhas fazendas de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro viraram verdadeiras minas de ouro.
Com o advento das cachaçarias, antigas adegas que vendiam toda sorte de bebida que se especializaram, surgiu um sem número de especialistas que tomam cachaça desde criancinha.
Hoje cachaça tem retrogosto e até aroma de malte. Não duvido que chegará o dia em que o degustador notará um fundo de frutas silvestre no aroma da branquinha. Cachaça na roça é ardida ou desce fácil. Só isso. Cachaça na cidade é diferente. É bebida fina. Alias, é cachaça, não pinga. Esta é coisa de pobre em balcão de botequim de periferia.
Para completar este panorama não pode faltar o profissional especializado. O folclorista Luis da Câmara Cascudo escreveu em um dos seus livros que “o brasileiro é devoto da cachaça, mas não é cachaceiro”.
Hoje o devoto mudou de nome, virou cachacier, corruptela de sommelier. Imagine só o ridículo de chegar a um restaurante e consultar um cachacier para pedir aquele quebra gelo.
Quem diria, é a cachaça virando coisa fina!