Não existe uma boa festa de final de ano sem contratempos e confusões. Resolvemos este ano comemorar a passagem de ano na casa do nosso amigo Maurício: casa pequena com um enorme jardim. Suas duas filhas passaram a tarde toda preparando mesas, enfeites, copos, etc.
Enquanto isso a turma da cozinha trabalhava a toda velocidade preparando os quitutes típicos da época: o pernil de cordeiro, um bonito salmão e, é claro, as lentilhas.
Mal deu nove horas da noite começou o corre-corre para tirar tudo o que foi preparado com todo carinho pelas duas meninas do jardim. É que começou a chover de forma vigorosa e duradoura. Parecia que a chuva não ia acabar nunca. De fato só foi acabar no meio da madrugada.
Como não houve outra solução, o jeito foi nos acomodarmos como possível. Era comida e gente para tudo quanto é lado! Alguns comiam sentados no sofá outros à mesa de jantar e alguns privilegiados na cozinha, que cheirava divinamente.
Nada como comer na cozinha, embora a ocasião pedisse uma instalação mais confortável. Na cozinha tudo é fácil, desde pegar a cerveja, o vinho e o espumante na geladeira até chatear o cozinheiro, na ocasião, o engenheiro Jelson - reclamando que a comida não saia nunca.
A cozinha sempre foi o centro das casas na roça. Na fazenda dos amigos Ane e Marçal, no interior de Minas Gerais, nunca vi a mesa da sala de jantar posta. Todos os eventos acontecem na grande mesa com dois bancos da cozinha à beira do fogão de lenha. Deste fogão saem as mais perfeitas galinhas que tenho notícia e do forno no quintal maravilhosos leitões com sua pele crocante. É na cozinha que todos se reúnem para comer, beber, falar mal da vida alheia e até jogar baralho. Esta cozinha, em particular, tem a aproximadamente 20 metros de sua porta uma bonita cachoeira com água gelada. Sem dúvida o melhor lugar da casa.
Cozinha de restaurante, no entanto, costuma ser um lugar inóspito, quente e barulhento. Há restaurantes na Europa e nos Estados Unidos onde os clientes brigam a tapa por um lugar em uma mesa improvisada na cozinha.Uma ocasião fomos, eu e uma repórter, a Roanne, no centro da França, fazer uma matéria no restaurante da família Troisgros. Chegamos pela manhã e demos de cara com um sofisticado e moderno restaurante. Começamos nosso trabalho com a entrevista e as fotos. Tudo corria normalmente, até que nos foi apresentada sua magnífica cozinha com uma linda vista para o jardim interno do hotel-restaurante. Não me lembro te ter visto nada parecido em todos os meus anos de trabalho.
A última foto da manhã era do pai, Pierre e seus dois filhos, Claude e Michel num salão com paredes pintadas de vermelho. Quando eu já estava terminando com a foto o maitre veio nos chamar para almoçar. Não entendi nada quando ele nos conduziu para a cozinha, mas quem é mané não pergunta, obedece.
No canto da cozinha havia uma pequena mesa que estava perfeitamente posta com três lugares com uma visão geral do ambiente. Era a mesa do chef. De lá podíamos observar todo o movimento da brigada e ainda ser servidos pelos garçons, maitre e sommelier, tal qual no salão do restaurante. Tudo funcionava a perfeição, até a gritaria da brigada era silenciosa.
O céu deve ser assim: serviço de primeira, comida maravilhosa, ambiente perfeito e a companhia do simpático chef Michel.