SURPRESA AGRADÁVEL
Publicado em Claudia Cozinha – Abril de 2006

Há algum tempo estive em Paris fotografando uma grande matéria tratando de luxo. Era hotel de luxo, restaurante de luxo, loja de luxo e até gente luxuosa. Enfim, era pura ficção.
Dentro desta pauta constava um passeio com o chef Eric Jacquin e seu mentor Henri Charvet, um respeitado especialista em foie gras. Nossa expedição começou com um divertido jantar no “Au Comte de Gascogne”, restaurante de Charvet em Boulogne. Os convivas eram um grupo de amigos de Jacquin que, motivados por uma quantidade considerável de garrafas de vinho, proferiram durante a magnífica refeição toda sorte de bobagem que se pode imaginar. Foi divertidíssimo!
Às 4 horas da manhã, depois de 3 horas de sono, estava eu zumbizão na recepção do Hotel Crillon (a hospedagem, também, era de luxo) esperando o chef me pegar para a próxima etapa, tão esperada por mim, o grande mercado de Rungis, uma espécie de Ceasa de Paris.
Minha expectativa era média, apesar de Paris ser o centro da gastronomia mundial, um Ceasa é sempre um Ceasa. Ledo engano!
Assim que atravessei o portão do complexo, minha impressão mudou por completo. O lugar é limpíssimo e muito organizado. Ele fica perto do aeroporto de Orly e ocupa uma área 230 hectares. Usando uma comparação típica do Brasil, são aproximadamente 350 campos de futebol.
Nossa primeira parada foi no pavilhão de aves e caças. Havia pilhas e mais pilhas de caixas de isopor lotadas coelhos, pombos, galinhas e patos, todos com suas penas e peles. Sem contar o canto lotado de foie gras. Parecia o paraíso. Como ninguém é de ferro passamos no bar para uma cerveja. O lugar lotado e não faria feio em qualquer canto de Paris.
Cada pavilhão que entrávamos meu queixo caia um pouco. As carnes são arrumadíssimas em uma enorme câmera refrigerada onde cada distribuidor tem um box separado com vários de tipos de carne penduradas em ganchos como roupas em uma tinturaria.
Na seção de frutas podem-se encontrar produtos do mundo inteiro. Aliás, foi ali que eu encontrei as mangas mais bonitas que já vi. Eram perfeitas, com coloração igual de todos os lados. O curioso foi quando fucei na caixa e descobri que se tratavam de frutas do nordeste brasileiro.
Para me deixar mais impressionado o chef me levou aa pavilhão das flores. Não existe aqui no Brasil nada que se compare a isto. É um espetáculo de cores incrível. Como lá não tem samambaia e vegetação tropical o único verde são os caules o que acaba produzindo uma impressão e tanto.
Oito horas da manhã já era dia claro. Hora de fazer uma boquinha. Escolhemos um bistrô entre os 30 restaurantes do complexo. Como era perto do pavilhão das carnes fomos experimentar os grelhados e assados. Parecia um restaurante da cidade: tinha garçon uniformizado, chef, uma grande carta vinhos e uma seleção de sobremesas que faria bonito em qualquer restaurante de São Paulo.
O bom de não esperar muita coisa deste tipo de expedição é que a boa impressão vem mais facilmente que a grande decepção. Afinal, ter um centro de distribuição de alimentos com esta qualidade é um luxo que só lugares como Paris podem se dar.