Test drive de sanduba popular
Publicado em Go Where Gastronomia – Junho de 2006
Existem certos acepipes populares que são consagrados e até respeitados. Dentro desta categoria estão os pasteis de feira, tidos como iguaria sem concorrência. Todo mundo elege o seu preferido, por coincidência, o da feira perto de sua casa.
O sanduíche de mortadela no Mercado Central de São Paulo tem uma enorme legião de fãs. Embora não passe de um lanche que pode ser encontrado em qualquer boteco da cidade a turma luta desesperadamente por uma vaga para estacionar nas proximidades do mercado, se espreme na enorme fila da lanchonete com o objetivo de provar a iguaria. Coisa que poderia ser feita na padaria da esquina de casa. Ou até em casa mesmo.
Até o sanduíche de pernil e churrasquinho de gato na porta do estádio de futebol tem seus apreciadores. E olha que não são poucos!
O grande esquecido, desprezado e mal falado é o churrasco grego. Conhecido por denominações como “Jesus me chama” ou “comeu, morreu” ninguém se arrisca mencioná-lo em uma roda de amigos sob o risco de ouvir expressões como, por exemplo: “Tá louco, meu?” ou “Sai pra lá urubu!”
Já que minha curiosidade era enorme me muni de toda a coragem e uma certa dose de loucura e fui ao centro da cidade de São Paulo experimentar o acepipe.
Me dirigi ao largo Paissandu, na verdade uma praça cheia de pontos de ônibus com uma igreja pintada de amarelo queimado no meio. Meu objetivo era responder uma pergunta que há tempos martelava na minha cabeça: Isto mata? Parece que não, já que estou escrevendo esta crônica agora.
Segunda pergunta: como é feito? Pude observar nas varias churrasqueiras suas variadas formas de apresentação. São empilhados inúmeros bifes de capa de filé ou acém, entremeados de gordura, cebola ou pimentão, tudo com muita gordura em um espeto que gira verticalmente numa espécie de churrasqueira elétrica. Ao todo são de 20 a 40 quilos de carne.
Este espeto fica girando o tempo todo a fim de ir assando as carnes lentamente, exalando um aroma de churrasco por toda praça.
Terceira pergunta: dá para comer? Depois que examinei todas as churrasqueiras da praça decidi pedir o meu sanduíche para um rapaz cabeludo e tatuado, trajando bermudas e um jaleco branco bastante limpo. Suas carnes ainda estavam meio mal passadas o que foi bom, porque o sistema de servir é muito semelhante às churrascarias rodízio. Com uma faca o rapaz tirou uma lasca do rolo de carne, recolheu os pedacinhos com uma pá, colocou-os dentro de um pãozinho francês e completou com vinagrete (tirado de uma gaveta sob a churrasqueira!). O gosto, para quem achava que fazia uma loucura, era bom, mas podia ser mais saboroso. O aroma superou em muito o sabor. Na hora de pagar veio a surpresa: o preço foi R$ 1,00 com direito a três copos de suco de maracujá doce e aguado. Uma pechinha!
Não satisfeito atravessei a praça para experimentar um mais bem passado. O lugar era esquisito e sujo. Logo vi que se tratava de uma preparação somente com gordura e carne que, aliás, estava esturricada, mas a salada de repolho bem melhor que aquele molho vinagrete do sanduíche anterior. Lá se foi mais R$ 1,00.
Diante destes valores e da peculiaridade do acepipe não sei como ainda não existem grupos de aficionados por esta legítima iguaria popular. Ou existem e eu nunca ouvi contar?