Na região mineira de Salinas, o visionário Antônio Rodrigues produz aguardente de cana de ótima qualidade, quase artesanalmente, mas em larga escala.
Se alguém estiver passando por Salinas, no norte de Minas Gerais, e cruzar com um senhor com uma grande barba grisalha, chapéu, um ramo de arruda atrás da orelha esquerda, montado em uma mula marrom em pleno centro da cidade, pode ter certeza de que encontrou uma das pessoas mais interessantes e importantes do município. É Antônio Rodrigues, produtor de três das mais prestigiadas marcas de cachaça da região: Seleta, Boazinha e Saliboa. Nos últimos anos, essa área se tornou uma espécie de centro nacional da cachaça de personalidade, que difere das outras pelo aroma e sabor exclusivos. No ano passado, os 50 produtores locais engarrafaram 2,6 milhões de litros da bebida. Rodrigues, sozinho, respondeu pela metade desse volume. Os números impressionam, mas não vieram facilmente. Ele foi o primeiro fazendeiro de Salinas a vislumbrar o potencial da aguardente de cana como negocio. “Enquanto todo mundo tinha uns bois e uma roça e uma cachacinha, eu tinha uma cachaça, uns boizinhos e uma rocinha”, compara.
O fenômeno da bebida como atividade principal dos agricultores de Salinas é recente. Nem o lendário Anísio Santiago, com a sua Havana, tinha nela a atividade econômica mais importante – o forte de sua fazenda era o café. Rodrigues se lançou no ramo em 1970, por sua sugestão do sogro, produtor da Indaiazinha. Começou vendendo a granel uma cachaça que as pessoas tratavam como “aquela boazinha”, envelhecida em tonéis de balsamo. Mais tarde passou a destilar uma segunda marca, que chamou de Seleta, um pouco mais suave, envelhecida dois anos, como a Boazinha, só que em tonéis de umburana. Apesar do sucesso, ganhou mesmo dinheiro em outras atividades. Em 1976, numa época de seca, o
DER, Departamento de Estradas de Rodagem de Minas, montou uma grande frente de trabalho para restaurar a rodovia que liga Belo Horizonte à BR-116, no norte do Estado. Rodrigues viu ali uma oportunidade de lucro e passou a fabricar colchões de capim para os trabalhadores. Arrecadou o suficiente para iniciar outro empreendimento e abriu a primeira madeireira da região.
Quando a produção de cachaça prosperou, ficou difícil comprar tonéis para envelhecimento. Como a madeira não era problema, ele procurou um técnico na também mineira Ponte Nova e fabricou suas próprias barricas. Hoje, sua tanoaria vende tonéis para todo o Brasil. Outra prova da visão: com o aumento da produção, o envasamento manual se tornou impossível e foi a vez de investir em uma engarrafadora, que agora presta serviço para vários produtores locais. Rodrigues mantém duas fazendas (Bananal e Indaiá ) com 120 hectares plantados de cana para abastecer a produção de suas três marcas. A Saliboa, a mais nova delas, surgiu em 1999, do desejo de seu filho Antonio, ou Toninho, como é conhecido, de produzir uma bebida diferenciada. Depois de varias experiências, chegou ao ipê-amarelo como madeira ideal e a três anos como período perfeito para o envelhecimento. Desse processo resulta uma cachaça bastante aromática e suave.
As três marcas tem sua individualidade. Todas, no entanto, são controladas de maneira absolutamente rigorosa. O curioso é que o processo continua a quase artesanal, só que em escala maior. Cada fazenda possui uma equipe de técnicos agrícolas que supervisionam desde a plantação da cana até o envelhecimento da cachaça. O controle proporciona a qualidade e a regularidade do produto. Rodrigues está sempre aberto a inovações. Para este ano, prevê um grande investimento em irrigação e pretende reorganizar a produção, concentrando o plantio na fazenda Indaiá e a destilação na Bananal. Ainda assim, nas propriedades convivem o novo e o tradicional – tratores modernos trazem a cana para a moagem e as juntas de boi levam o bagaço de volta para adubar a lavoura. Pessoalmente, ele continua sendo um homem da roça, extremamente ligado à terra, que acorda muito cedo para andar pela plantação. E, mesmo dispondo de toda tecnologia, só manda iniciar a safra quando o barulho do vento no canavial indica estar na hora de cortar e moer a cana.