Fabricação artesanal e cuidados especiais fazem a fama internacional da nossa cachaça
Quem olha alguns poucos anos para trás vai lembrar como era extravagante pedir uma dose de cachaça em um bar com alguma categoria. Alias, o termo cachaça só existia em Minas Gerais e em Parati (RJ). No resto do Brasil era pinga mesmo! Lá se foi o tempo que pinga era coisa de pobre. Hoje até bacana toma cachaça.
Atualmente as indústrias, associações e o próprio governo incentivam a turma a, valorizar, beber e exportar a danada. A cachaça é o terceiro destilado mais vendido no mundo, só perdendo para a Vodca e o Soyu (bebida coreana muito apreciada em toda Ásia).
O Brasil produz aproximadamente 1,3 bilhão de litros por ano, sendo exportados por volta de 1% de toda produção. São uns quinze milhões de garrafas espalhadas pelo mundo. Quase todas saídas dos grandes fabricantes do Pernambuco, Ceará, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro. No sul do país a produção também marca presença: lá prevalecem as cachaças com influência européia, mais aromatizadas.
Toda esta cachaça tem, primordialmente, como seu destino a Europa, especialmente a Alemanha, compradora de 30% das nossas exportações. Isto não quer dizer que outros países não têm a oportunidade de tomar uma branquinha.
São 60 os países do mundo que tomam nossa cachaça, geralmente como caipirinha, conhecida como o “famoso coquetel brasileiro” (Brazil’s famous cocktail), que ocupa lugar na lista dos drinques clássicos da International Bartenders Association desde 1995. Purinha, só se bebe aqui mesmo, no boteco sujo da esquina, no bar inglês, nos night clubs ou no restaurante refinado.
Com toda esta valorização da cachaça, as pessoas começaram a criar categorias: as boas para tomar pura, as mais suaves para caipirinha ou as especiais, às vezes caríssimas.
A cachaças de Minas Gerais são consideradas por muitos as melhores. Dá-se um valor especial àquelas vidas de Salinas.
Cidade no Norte do estado de Minas Gerais, Salinas parece com um lugar qualquer da Região. De poucos anos para cá vem se criando uma verdadeira indústria da cachaça artesanal. São pouco mais de 40 produtores legais e um sem número de alambiques clandestinos. A altitude de 470 metros, o solo ácido e o regime de chuvas muito regular, chove de Novembro a Abril, no resto do ano praticamente não chove, determinam a qualidade da cana-de-açúcar cultivada.
A fama da região teve início há pouco mais de 20 anos, quando começaram a chegar em Belo Horizonte, São Paulo e Brasília as garrafas da cachaça Havana. Produzida em pequena escala por Anísio Santiago, ela foi sempre considerada a rainha das cachaças. Anísio alimentou o mito, não se deixando fotografar, nem dando entrevistas. Seus funcionários recebiam em cachaça e as repassavam na cidade pelo dobro do preço. Hoje a garrafa de “Anísio Santiago”, produzida por seu filho Osvaldo, sucessora da Havana que perdeu o nome por questões judiciais, chega a custar R$ 334,00 em São Paulo.
O processo de produção da cachaça segue parâmetros muito rigorosos.A cana não pode ser queimada, como se faz na produção do açúcar, a fim de facilitar a colheita. Tem que ser cortada rente ao solo para aproveitar o máximo da parte inferior (a mais doce) da planta.Depois de criteriosa fermentação, o mosto passa por alambiques de cobre.
Estes alambiques não podem ser muito grandes, no máximo 3 mil litros. Toda cachaça da região só é destilada uma vez. Diz-se por lá que a diferença entre a cachaça mono-destilada e a bi-destilada é a mesma entre a galinha caipira e a galinha de granja.
No envelhecimento reside a maior diferença perceptível para o consumidor comum. Cada tipo de madeira imprime cor e aroma próprios à cachaça. O jequitibá rosa, por exemplo, não dá cor à bebida nem um aroma intenso. Neste caso esta cachaça é perfeita para a caipirinha.
Em Salinas a cachaça costuma descansar, no mínimo, 2 anos em tonéis não maiores que 10 mil litros. Hoje os produtores da região respeitam estes parâmetros com muita atenção, já que isto é a característica do produto local.
Recentemente foi aberto na cidade o primeiro curso de tecnólogo em cachaça no Brasil. Isto vai permitir um grande aumento na qualidade do produto local, uma vez que a grande maioria da mão de obra é constituída de gente que aprendeu de forma intuitiva como proceder para a fazer uma cachaça da boa.
Por tudo isto podemos ficar tranqüilos com relação aa qualidade da pinga que vamos conseguir tomar daqui para adiante. Isto sem contar a turma dos mais de 60 países que recebem a nossa cachaça.
A maior surpresa quando se chega à Fazenda Bananal, onde se produz 2,5 milhões de litros anuais (mais de metade da cachaça da região de Salinas) é ser recebido por uma mulher. Muito a vontade neste ambiente masculino trabalha Cristiane Correa Costa, 26 anos, engenheira agrônoma, nascida em Berilo (MG), em pleno vale do Jequitinhonha.
Criada como toda moça da região para ser professora,cresceu vendo seu pai produzir cachaça para vendê-la a granel. Sempre fugiu na roça mas, como a vida dá voltas, conheceu Antônio Rodrigues (Cachaças Seleta, Boazinha e Saliboa) em uma palestra na faculdade e acabou sendo convidada a cuidar do seu canavial logo que se formou.
Já no segundo ano trabalhando em Salinas teve que assumir toda a produção de cachaça, quando Nilson, o Neguinho, gerente de produção, com 29 anos e 13 de empresa, teve que ser transferido para a outra fazenda para reorganizar os engenhos. Foram tempos difíceis, já que ninguém respeitava a mocinha que achava que sabia mais que os velhos funcionários. São 80 homens.
Terminada sua primeira safra com sucesso, voltou a dividir o trabalho com o Nilson, que voltou para assumir seu posto. Hoje Cristiane vive com ele e 3 cachorros, mas não larga a vida na roça, lugar de onde procurou se afastar durante toda sua vida.