As nossas férias escolares eram os melhores dias do ano. Invariavelmente chegávamos, eu, meus dois irmãos e minha mãe, cedíssimo ao aeroporto (como fazia frio!) para uma viagem de um dia inteiro de São Paulo à Fortaleza. O avião parava em qualquer pista pelo caminho. Em cada escala todos descíamos com a recomendação: “Não vá longe menino, senão o avião nos deixa aqui mesmo”.
Depois de quase um dia inteiro chegávamos, finalmente, à Fortaleza e nos próximos dias já estávamos indo para o “Cajueiro do Ministro”, lugar onde meu avô mantinha um engenho, uma casa de farinha e uma plantação de coqueiros.
Como era bom andar de jegue, se jogar na pilha de bagaço e comer puxa no engenho. Junto com os nossos primos devíamos formar uma turma impossível.
Minha avó tinha o hábito de prender as galinhas em uma espécie de casinha alguns dias antes de abatê-las. Neste período elas só eram alimentadas com milho e água. As aves eram multicoloridas, algumas avermelhadas, outras acascastanhadas, outras pretas ou esbranquiçadas.
Era uma maravilha quando a cozinheira, Munda trazia a enorme travessa com galinha ao molho pardo, já que éramos um monte de meninos esfomeados, apesar da colossal quantidade de garapa sorvida à beira da moenda.
Existia uma ave que me intrigava. Parecia uma galinha toda pintadinha de branco, só que ninguém a chamava de galinha, nem dava bola para elas que andavam em grandes grupos e se empoleiravam em cima das árvores. Não entendia para que serviam. Todo mundo tratava aquele bicho sem valor por capote.
Às vezes, nos feriados, viajávamos a Lins, interior de São Paulo, onde o tio Geraldo tinha uma fazenda de café e algum gado. O bom de lá era tirar leite da vaca. Era difícil, mas compensava. O leite com Nescal no fundo do copo era quentinho mas, o curral era fedido.
Lá também tinha, embora em número menor, o tal do capote, mas lá era conhecido como tôfraco. Lá, também, ninguém dava bola para eles.
Anos mais tarde mochilando pela Europa cheguei à França de posse de um francês medíocre e de uma ignorância oceânica (coisas da juventude). Sentei em um pequeno restaurante barato e abri o cardápio. Foi um susto, não entendi nada, nada mesmo!
Pedi a única coisa que eu acreditava que conhecia. Pedi um prato de pintade esperando que fosse o, já conhecido, pintado na brasa. Que surpresa quando me chega um prato com três esquálidos pedaços de frango acompanhados de algumas batatas.
Diante da minha perplexidade o dono do restaurante conseguiu uma ilustração do tal do pintade. Não é que o danado era o meu velho conhecido capote ou tôfraco?
Ultimamente tenho ido com alguma freqüência a Salinas no Norte de Minas Gerais, onde me hospedo na fazenda de amigos. Lá eu sou o único consumidor da galinha d’angola, lá conhecida como cocar. Ninguém dá bola para esta maravilha de carne escura e dura, motivo pela qual é desprezada na roça.
A forma predileta de preparar a ave é deixar os pedaços da galinha descansando no leite por algum tempo e depois cozinhar, cozinhar e cozinhar. Fica uma delícia. Uma pena é que parece que eu sou o único apreciador desta maravilha.
Desta forma, parece, que ainda vai sobrar muito capote, tôfraco, cocar ou galinha d’ angola no interior do país para continuar enfeitando as árvores do sertão.