O QUERIDINHO DAS RUAS
Publicado em Claudia Cozinha – Março de 2006


Sexta feira é o dia que a turma do meu estúdio, na região central de São Paulo, mais gosta. Primeiro pelo fato de ser o último dia da semana e depois, porque tem feira na rua de baixo. Na hora do almoço todo mundo corre para comer pastel na barraca do japonês, coisa que ninguém resiste e ainda tem orgulho de dizer que come, gosta, mas evita para não engordar.
O pastel da feira é um retumbante sucesso. Ninguém pode dizer que nunca experimentou. Da socialite ao office-boy, todo mundo tem os seus favoritos, normalmente o da feira perto de sua casa ou do seu serviço.
A barraca do pastel é a primeira a ser montada, uma vez que os feirantes precisam comer alguma coisa antes de pegar no batente, assim como é a última a ser desmontada para atender os fregueses retardatários ou aqueles que vão à feira mais tarde, na hora da xepa, para aproveitar os preços mais baixos dos produtos.
Não há como resistir a um crocante pastel frito na hora acompanhado de um copo de caldo de cana da barraca ao lado. Esta combinação soma uma quantidade indecente de calorias para uma refeição civilizada. Mas quem está pensando em civilidade quando morde aquela maravilhosa iguaria recheada com queijo, carne ou de seja lá o que for?
O mais difícil é escolher qual comer no improvisado cardápio escrito em sacos papel pardo pendurados com pregadores a um varal que atravessa a barraca. Tem tudo quanto é tipo de recheio: queijo, pizza, carne, frango com catupiy e até especial, um tipo de x-tudo em forma de um pastel duplo. Este vale por uma refeição completa.
Toda a quinta é armada uma feira em uma rua onde estão localizados alguns dos mais sofisticados restaurantes da cidade. Basta bater onze horas para começar o desfile de cozinheiros e sub-chefs, todos uniformizados, escolhendo os seus pasteis. Quem passa desavisado por ali não entende porque a turma troca a sofisticada comida de seus estabelecimentos por um reles pastel acompanhado por caldo de cana.
O acepipe é um símbolo paulistano, a ponto de se contar pelo Brasil afora que a turma daqui costuma sentar no bar e ordenar: “Me dá um choppe e dois pastel”.
Existe, também, o renomado pastel de bacalhau do Mercadão - o Mercado Central de São Paulo. Para experimentar o danado é preciso uma paciência quase sobre-humana. Estacionar o automóvel é uma loucura. Quando o esfomeado entra no prédio dá de cara com uma enorme fila que serpenteia entre as barracas de secos e molhados. Lá se vai mais meia hora para conseguir chegar ao balcão da pastelaria. Daí, mais quinze minutos de espera. Quando a paciência do freguês atinge o limite, chega a iguaria: um enorme pastel murcho lotado de bacalhau com cebola. Uma maravilha! Toda a espera valeu a pena.
Como todos sabem, não existe recompensa sem sacrifício.